A interpretação bíblica e sua relevância para a atualidade.
Nos dias atuais muitas anomalias teológicas surgiram no meio das comunidades eclesiais. Esse fato se deve ao grande despreparo por parte daqueles que estão “interpretando” as Sagradas Escrituras e transmitindo-as ao povo. Interpretar a bíblia corretamente constitui-se então um desafio para os teólogos nos dias atuais.
O termo hermenêutica deriva do verbo grego hermeneu (traduzir, interpretar), e também do substantivo hermeneia (interpretação, tradução).
Palmer (1989, p.24) comenta que o termo hermenêutica está ligado ao deus mensageiro Hermes, pois sua função “é transformar tudo aquilo que ultrapassa a compreensão humana em algo que essa inteligência consiga compreender”. Além disso, ele apresenta três orientações significativas de hermeneuein que são como “dizer”, “explicar” e “traduzir”.
As implicações desses três significados são fundamentais para o teólogo e para a igreja na atualidade, visto que o papel da igreja é a proclamação do kerygma. Por essa razão para que haja uma proclamação kerygmática correta, faz-se necessário uma hermenêutica adequada.
O primeiro significado, a hermenêutica como “dizer” sugere a função sacerdotal de Hermes que consiste em proclamar a mensagem dos deuses aos seres humanos. Essa mensagem proclamada deve ser interpretada pelo sacerdote.
Infelizmente a igreja atual tem perdido sua função sacerdotal, que ao invés de proclamar a mensagem de Deus, está proclamando a sua própria mensagem ou a mensagem de uma estrutura demoníaca[1]. Por essa razão entendo que a igreja não deve negociar sua proclamação, nem tampouco banalizá-la, atendendo aos encantos do mercado religioso atual. Pois a nossa função sacerdotal vai, além disso, visto que somos o porta-voz autorizado para falar em nome de Deus.
O segundo significado, a hermenêutica como “explicar” apresenta a função explicativa ou interpretativa de Hermes. As mensagens do oráculo de Delfos eram interpretações de uma situação, de uma determinada realidade. Algo que não era revelado, e que agora passa a ser conhecido através da intervenção do hermeneuta.
A igreja como a responsável de explicar o kerygma precisa não apenas recitar os textos bíblicos sobre o Cristo, mas precisa elucidá-los aos ouvintes. O grande problema é que obscurecer o sentido do texto para alguns líderes é mais conveniente que explicá-los, pois deixar alguém sem a explicação bíblica é garantia alienação teológica.
O terceiro significado, a hermenêutica como “traduzir” apresenta a função mediadora de Hermes, pois o tradutor é um mediador entre dois mundos distintos. Traduzir uma mensagem não é simplesmente encontrar termos sinônimos, mas tornar compreensível aquilo que é estrangeiro ou estranho. A igreja tem falhado ao traduzir o kerygma na atualidade, pois continua utilizando uma linguagem ultrapassada, arcaica e que não é relevante para o homem atual. Traduzir é uma tarefa de grande urgência na atualidade visto que a linguagem cristã do passado já se desgastou, sendo algo superado e que já não atrai mais ninguém, antes tem sido motivo de escândalo. A hermenêutica e seus significados como “dizer”, “explicar” e “traduzir” precisam ser resgatados nas comunidades eclesiásticas, pois estamos muito distantes dos tempos bíblicos. Essa distância histórica, cultural, lingüística e filosófica tem acarretado sérios problemas para a compreensão e também para a transmissão do kerygma. Assim, gostaria de encerrar este artigo com as palavras de Barth no livro “Introdução à Teologia Evangélica” onde ele fala que como aconteceu no profetismo e no apostolado, o objetivo do teólogo é “Dar respostas humanas à palavra divina”.
[1] Demoníaco no sentido de Tillich.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
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