segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O Mito da Caverna
Platão
Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.
Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol, e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.
Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo.
Extraído do livro "Convite à Filosofia" de Marilena Chaui.
QUAL A RELAÇÃO DESSE TEXTO COM O FAZER TEOLOGIA?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A interpretação bíblica e sua relevância para a atualidade.

A interpretação bíblica e sua relevância para a atualidade.

Nos dias atuais muitas anomalias teológicas surgiram no meio das comunidades eclesiais. Esse fato se deve ao grande despreparo por parte daqueles que estão “interpretando” as Sagradas Escrituras e transmitindo-as ao povo. Interpretar a bíblia corretamente constitui-se então um desafio para os teólogos nos dias atuais.
O termo hermenêutica deriva do verbo grego hermeneu (traduzir, interpretar), e também do substantivo hermeneia (interpretação, tradução).
Palmer (1989, p.24) comenta que o termo hermenêutica está ligado ao deus mensageiro Hermes, pois sua função “é transformar tudo aquilo que ultrapassa a compreensão humana em algo que essa inteligência consiga compreender”. Além disso, ele apresenta três orientações significativas de hermeneuein que são como “dizer”, “explicar” e “traduzir”.
As implicações desses três significados são fundamentais para o teólogo e para a igreja na atualidade, visto que o papel da igreja é a proclamação do kerygma. Por essa razão para que haja uma proclamação kerygmática correta, faz-se necessário uma hermenêutica adequada.
O primeiro significado, a hermenêutica como “dizer” sugere a função sacerdotal de Hermes que consiste em proclamar a mensagem dos deuses aos seres humanos. Essa mensagem proclamada deve ser interpretada pelo sacerdote.
Infelizmente a igreja atual tem perdido sua função sacerdotal, que ao invés de proclamar a mensagem de Deus, está proclamando a sua própria mensagem ou a mensagem de uma estrutura demoníaca[1]. Por essa razão entendo que a igreja não deve negociar sua proclamação, nem tampouco banalizá-la, atendendo aos encantos do mercado religioso atual. Pois a nossa função sacerdotal vai, além disso, visto que somos o porta-voz autorizado para falar em nome de Deus.
O segundo significado, a hermenêutica como “explicar” apresenta a função explicativa ou interpretativa de Hermes. As mensagens do oráculo de Delfos eram interpretações de uma situação, de uma determinada realidade. Algo que não era revelado, e que agora passa a ser conhecido através da intervenção do hermeneuta.
A igreja como a responsável de explicar o kerygma precisa não apenas recitar os textos bíblicos sobre o Cristo, mas precisa elucidá-los aos ouvintes. O grande problema é que obscurecer o sentido do texto para alguns líderes é mais conveniente que explicá-los, pois deixar alguém sem a explicação bíblica é garantia alienação teológica.
O terceiro significado, a hermenêutica como “traduzir” apresenta a função mediadora de Hermes, pois o tradutor é um mediador entre dois mundos distintos. Traduzir uma mensagem não é simplesmente encontrar termos sinônimos, mas tornar compreensível aquilo que é estrangeiro ou estranho. A igreja tem falhado ao traduzir o kerygma na atualidade, pois continua utilizando uma linguagem ultrapassada, arcaica e que não é relevante para o homem atual. Traduzir é uma tarefa de grande urgência na atualidade visto que a linguagem cristã do passado já se desgastou, sendo algo superado e que já não atrai mais ninguém, antes tem sido motivo de escândalo. A hermenêutica e seus significados como “dizer”, “explicar” e “traduzir” precisam ser resgatados nas comunidades eclesiásticas, pois estamos muito distantes dos tempos bíblicos. Essa distância histórica, cultural, lingüística e filosófica tem acarretado sérios problemas para a compreensão e também para a transmissão do kerygma. Assim, gostaria de encerrar este artigo com as palavras de Barth no livro “Introdução à Teologia Evangélica” onde ele fala que como aconteceu no profetismo e no apostolado, o objetivo do teólogo é “Dar respostas humanas à palavra divina”.
[1] Demoníaco no sentido de Tillich.